10 respostas sobre adoçantes

Pessoal, aqui vão 10 respostas sobre adoçantes em entrevista à Revista Saúde Hoje e Sempre.

O tema foi matéria de capa da edição 04 (versão impressa) da Revista, que ficou muito boa, com a colaboração de vários profissionais.

Qualquer dúvida, é só me escrever.

1- Pautar as escolhas alimentares apenas pelo critério light, sem considerar o valor nutricional dos alimentos (como ao preferir um suco industrializado zero – que pode ter muito sódio – ao invés de um suco natural integral), pode ser prejudicial à saúde?

Para se escolher um produto light, é preciso saber o que se está buscando: redução de calorias, gorduras totais, açúcares, sódio ou outros nutrientes. Nesse caso, se a escolha é por um produto com baixo valor energético, optar por um suco “zero” (provavelmente zero calorias) atenderá às suas expectativas. A partir daí, dentre os produtos “zero”, ainda seria necessário escolher dentre aqueles com menor teor de sódio, já que realmente os produtos industrializados contêm aditivos que, em sua maioria, contêm sódio em sua composição e são prejudiciais à saúde. No entanto, fazer escolhas com base em uma visão maquineísta (bem ou mal), não é a melhor forma de fazê-las. Tudo depende do conhecimento sobre alimentos, da necessidade do momento e também do propósito do uso. Ainda assim, não se pode negar que uma “laranja espremida na hora” é a representação mais fiel daquilo que nosso paladar, verdadeiramente, reconheceria como suco. O que acontece é que, às vezes, buscamos algo que satisfaça nossos sentidos e nos sabotamos ingerindo algo “zero” (pronto e prático). A consequência disso: ingerimos duas “zero” calorias, porém o dobro dos outros nutrientes (que podem ser saudáveis ou não), sem nem ao menos chegarmos aos “pés” da laranja, literalmente.

Atualmente, a Resolução que vigora em termos de Informação Nutricional Complementar comparativa é a RDC 54/2012. Para a utilização do atributo “Reduzido” são autorizados os termos “light”, “reduzido em…”, “menos…” e “menor teor de…” e a condição para a utilização desse atributo é que haja uma redução mínima de 25% do valor energético e/ou de nutrientes em relação ao alimento de referência do mesmo fabricante.1

2- Dentre os edulcorantes mais comuns, ciclamato e sacarina são os únicos que contêm sódio. Eles são  utilizados em produtos alimentares sob a denominação light. Sendo assim, os consumidores devem prestar atenção aos rótulos dos produtos lights para ver se não estão ingerindo mais sódio do que a recomendação diária.

O ciclamato pode aparecer na composição de produtos como ciclamato de sódio, de cálcio e também sob a forma de ácido ciclâmico. Já a sacarina é comercializada sob a forma de sais de cálcio e de sódio, bem como na forma ácida livre.2  Apesar desses edulcorantes poderem apresentar sódio em suas formas comerciais, há uma gama enorme de outros aditivos (além dos edulcorantes) como o carbonato de sódio, silicato de sódio (antiumectantes), glutamato monossódico e iosinato dissódico (realçadores de sabor), entre outros, que contribuem para o aumento da quantidade desse nutriente nos produtos. Acredito até que a quantidade de sódio presente nesses edulcorantes seja ínfima perto daquela presente nos aditivos e no próprio sal adicionado. O sódio que é apresentado na informação nutricional do produto, portanto, provém de todas essas fontes. Independentemente de o produto receber uma denominação light ou diet, recomenda-se que se observe a quantidade de sódio na sua informação nutricional, bem como o seu %VD (Valor Diário de referência) calculado com base em uma dieta de 2000 kcal. Assim, uma pessoa que consuma uma porção de um produto que apresente 50% do VD de sódio, estaria ingerindo metade da necessidade diária desse nutriente, somente nessa porção.

3- O fato de produtos lights serem menos calóricos pode induzir a pessoa a comer mais, acabando com a essa vantagem?

Primeiramente devemos enfatizar que produtos lights nem sempre são menos calóricos. Eles podem ser light em açúcares, por exemplo, e terem sido acrescidos de gorduras (para manter características de textura e sabor) e, por isso, não serem menos calóricos. Acredito que os produtos light não “induzem” as pessoas a comerem mais. Há um ponto, talvez, que envolva o marketing agressivo e outro que envolva a ausência da consciência alimentar (que pode levar ao comer sem atenção ou até ao comer compulsivo). Pessoas que buscam produtos menos calóricos, precisam ter em mente o teor calórico do produto de referência que costumavam comer. Somente assim será possível obter vantagem quando o assunto é redução de calorias. De qualquer forma, é preciso perceber que muitos outros aspectos precisam ser considerados para a adequação e a satisfação com a nossa massa corporal.

4- Quem não é diabético e costuma consumir, além dos lights, produtos diets, está cometendo um erro e indo por um caminho pouco interessante do ponto de vista do emagrecimento, correto?

O termo diet somente pode ser utilizado em algumas categorias de alimentos para fins especiais, estabelecidas na Portaria n.° 29/1998: alimentos para dietas com restrição de nutrientes, alimentos para controle de peso e alimentos para ingestão controlada de açúcares.5 Nesses casos, o termo diet pode, opcionalmente, ser utilizado em alimentos produzidos para indivíduos com exigências físicas e/ou que sofrem de doenças específicas como, por exemplo, diabetes. No entanto, é importante esclarecer que essa denominação não é, obrigatoriamente, referente a um produto para diabético, que deve ficar atento ao rótulo e verificar sempre as informações da rotulagem.

É importante que fique claro também que nem todos os produtos diet apresentam diminuição significativa na quantidade de calorias e, portanto, devem ser evitados pelas pessoas que querem emagrecer. Um exemplo clássico é o chocolate diet que apresenta teor calórico próximo ao do chocolate normal. O chocolate diet é indicado para as pessoas diabéticas pois é isento (restrito) em açúcar, mas não para as pessoas que desejam reduzir o peso, já que no chocolate diet pode haver uma maior adição de gordura (para melhorar características de sabor e textura), aumentando o seu valor calórico e o aproximando do chocolate normal.

Para finalizar essa questão eu diria que não há um caminho para o emagrecimento, há vários. Na verdade, para isso, é necessária uma viagem, um verdadeiro entendimento e consciência da alimentação. Nesse processo, vamos percebendo que diet e light vão ficando “pelo caminho” quando vemos que, realmente, outras coisas fazem mais sentido para a adequação e a satisfação com a nossa massa corporal.

5- O Ministério da Saúde (MS) recomenda o consumo de alimentos ao invés de produtos alimentícios. O mel e o xarope de agave são as únicas alternativas in natura ao açúcar (refinado, cristal e mascavo)?

Para conceituar, o xarope de agave é obtido através da planta Agave tequilana e a sua produção ocorre através da quebra, filtragem, homogeneização e evaporação da planta.6 Já o mel é formado do néctar das flores por uma enzima (invertase) presente no corpo das abelhas; passa por alguns processos como centrifugação, filtragem e decantação. O açúcar de mesa é a sacarose obtida do caldo de cana-de-açúcar ou de beterraba e passa por processo de refino.2 Segundo o Guia alimentar para a população brasileira (2ª versão- publicada em 05 de novembro de 2014)7, os três poderiam ser classificados na segunda categoria: produtos extraídos de alimentos in natura ou diretamente da natureza e usados pelas pessoas para temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias, ou seja são considerados ingredientes culinários.

O MS, através do Guia, recomenda que façamos de alimentos in natura ou minimamente processados, a base de nossa alimentação, que utilizemos o açúcar em pequenas quantidades, limitemos o uso de alimentos processados e evitemos alimentos ultraprocessados. Ao nos depararmos com essas recomendações precisamos, primeiramente, visualizar o macro cenário ao qual ele se refere, por exemplo: “opte por água, leite e frutas no lugar de refrigerantes, bebidas lácteas e biscoitos recheados”. As recomendações dizem respeito aos itens alimentares presentes no nosso dia-a-dia e são essas que devem receber maior atenção. Depois disso, alternativas in natura ou minimamente processadas podem ser adotadas para substituir os alimentos ultraprocessados. Isso porque, não faz sentido fazer uso de mel e xarope de agave e continuar incluindo bebidas lácteas, biscoitos recheados, sopas “de pacote”, macarrão “instantâneo”, entre outros, na alimentação.

6- Quais são os adoçantes considerados naturais?

Adoçantes são substâncias utilizadas para conferir sabor doce às preparações, como os açúcares e seus derivados, a rapadura, o xarope de glicose, o mel, etc; são sempre energéticos.

Adoçantes dietéticos são os produtos formulados para dietas com restrição de sacarose, frutose e glicose; são produzidos sinteticamente e podem ter como princípio ativo (edulcorantes) o aspartame, a sacarina sódica, o ciclamato de sódio, o acesulfame K, a sucralose e a estévia.Os edulcorantes podem ser não calóricos ou de baixa caloria. Dentre esses, os esteviosídeos, extraídos da planta Stevia rebaudiana são os únicos considerados naturais, já que os outros são produzidos sinteticamente.2

7- Quais alimentos industrializados têm adoçantes e a gente nem imagina?

Vários alimentos podem conter adoçantes dietéticos. Eles podem ser utilizados para reduzir a quantidade de açúcar de um produto, por exemplo. Esses dias li um rótulo de suco em pó que continha açúcar e também aspartame, ciclamato de sódio, acessulfame de potássio e sacarina (edulcorantes presentes na composição de adoçantes dietéticos). É preciso conhecer as denominações dos edulcorantes e procurá-los na lista de ingredientes dos rótulos dos produtos, caso se queira evitá-los.

8- Em relação às vantagens das opções tidas como melhores que o açúcar refinado, muitos nutricionistas indicam o açúcar mascavo (pela presença de nutrientes como cálcio, ferro e sais minerais). Qual a sua opinião?

Realmente o açúcar mascavo contém consideráveis quantidades de cálcio e ferro (127 mg/100g e 8,3 mg/100g, respectivamente) quando comparados às quantidades desses nutrientes no açúcar refinado (4 mg/100g e 0,1 mg/100g, respectivamente).9 No entanto, o uso de uma quantidade rotineira de açúcar mascavo, por exemplo 15 gramas por dia para adoçar alguns cafezinhos, resultaria na ingestão de apenas 11,8 miligramas de cálcio. Essa quantidade representaria em torno de 1% da Ingestão Diária Recomendação (IDR) desse nutriente10. Se continuarem pensando que somente os nutrientes representam vantagens nutritivas, estariam se fixando em questões mesquinhas que tendem a reduzir os alimentos às suas propriedades nutritivas e/ou calóricas. A escolha ou recomendação de uso do açúcar mascavo deve ser feita considerando vários outros aspectos como os de produção e cultura, da necessidade do momento, do propósito do uso, além de aspectos que incluem a orientação para a busca de sabores, paladares e hábitos alimentares novos. Acredito que é assim que deveríamos pensar ao escolher alimentos: não reduzi-los a propriedades nutritivas e calorias.

9- Açúcar light é apenas açúcar combinado com adoçante?

O açúcar light pode conter diversos tipos de edulcorantes em sua formulação. Como já mencionado, os edulcorantes podem ser não calóricos ou de baixa caloria e isso contribui para a redução energética do açúcar light. A quantidade de cada um deles é que definirá o poder adoçante desse tipo de açúcar. Também o tipo e quantidade do edulcorante utilizado poderá conferir sabor residual ou amargo característicos. Particularmente eu tenho um paladar que percebe o menor miligrama de qualquer edulcorante, já que eles me amargam a boca. Então, para mim, produto com edulcorante não tem nada de saboroso.

Atualmente, a Resolução que vigora em termos de Informação Nutricional Complementar comparativa é a RDC 54/2012. Para a utilização do atributo “Reduzido” são autorizados os termos “light”, “reduzido em…”, “menos…” e “menor teor de…” e a condição para a utilização desse atributo é que haja uma redução mínima de 25% do valor energético e/ou de nutrientes em relação ao alimento de referência do mesmo fabricante.

10- Há adoçantes que não são absorvidos pelo organismo e vão diretamente para os rins, sobrecarregando-os?

Desconheço se há particularidades em relação ao processo de absorção dos adoçantes dietéticos. De uma forma geral, em sua grande maioria, os nutrientes são absorvidos no intestino.

Quanto à frutose, por exemplo, ela é absorvida através de dois mecanismos distintos, sendo o primeiro um transporte facilitado, independente da glicose, e o segundo, um co-transporte, dependente da glicose.11

Referências:

  1. Resolução RDC Nº 54, de 12 de novembro de 2012. Dispõe sobre o Regulamento Técnico sobre Informação Nutricional Complementar. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/630a98804d7065b981f1e1c116238c3b/Resolucao+RDC+n.+54_2012.pdf?MOD=AJPERES. Acesso em: 04 de novembro de 2014.
  1. Araújo, W.M.C.; Montebello, N.D.P.; Botelho, R.B.A.; Borgo, L.A. Alquimia dos alimentos. 2º Edição. Série alimentos e bebidas, vol. 2, 2011.
  1. Resolução RDC nº 360, de 23 de dezembro de 2003. Aprova Regulamento Técnico sobre Rotulagem Nutricional de Alimentos Embalados, tornando obrigatória a rotulagem nutricional. http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/ec3966804ac02cf1962abfa337abae9d/Resolucao_RDC_n_360de_23_de_dezembro_de_2003.pdf?MOD=AJPERES. Acesso em: 04 de novembro de 2014.
  1. WHO. Guideline: Sodium intake for adults and children. Geneva, World Health Organization (WHO), 2012. Disponível em: http://www.who.int/nutrition/publications/guidelines/sodium_intake_printversion.pdf. Acesso em: 04 de novembro de 2014.
  1. Portaria nº 29, de 13 de janeiro de 1998 ( Versão Republicada – 30.03.1998). Aprova o Regulamento Técnico referente a Alimentos para Fins Especiais. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/2a1d950047458eca97dbd73fbc4c6735/PORTARIA_29_1998.pdf?MOD=AJPERES. Acesso em: 04 de novembro de 2014.
  1. BRASIL. Guia para Comprovação da Segurança de Alimentos e Ingredientes. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Brasília. DF. 2013. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/2b84a5004eb5354885fb878a610f4177/Guia+para+Comprova%C3%A7%C3%A3o+da+Seguran%C3%A7a+de+Alimentos+e+Ingredientes.pdf?MOD=AJPERES. Acesso em: 04 de novembro de 2014.
  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014. 156 p.
  1. Shapiro, A. et al. Fructose-induced leptin resistance exacerbates weight gain in response to subsequent high-fat feeding. American Journal of Physiology – Regulatory, Integrative and Comparative Physiology. Nov 2008, 295(5). R1370-R1375. DOI:10.1152/ajpregu.00195.2008.
  1. Tabela brasileira de composição de alimentos / NEPA –UNICAMP.- 4. ed. rev. e ampl.. — Campinas: NEPA UNICAMP, 2011.161 p.
  1. Dietary Reference Intakes (DRIs): Recommended Dietary Allowances and Adequate Intakes, Elements. Food and Nutrition Board, Institute of Medicine, National Academies.
  1. BARREIROS, Rodrigo Crespo; BOSSOLAN, Grasiela; TRINDADE, Cleide Enoir Petean. Frutose em humanos: efeitos metabólicos, utilização clínica e erros inatos associados. Rev. Nutr.,  Campinas ,  v. 18, n. 3, June  2005.

A foto utilizada neste post foi a capa da revista modificada por Bruna Menegassi.

O link de divulgação da matéria é http://saude.casadois.com.br/saude-hoje-e-sempre/edicoes/edicao-04/

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