Afinal, o que é natural?

Eis que na lanchonete, a garota pede:

-Por favor, um sanduíche natural e um suco de laranja!

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O funcionário traz um daqueles típicos no pão de forma, com peito de peru defumado, maionese, alface e um cisco de cenoura ralada.

Saio da lanchonete e no outdoor da esquina, a propaganda grita: Suco 100% natural… Na fila do supermercado dou de cara com um pacote de salgadinho que informa “aroma natural de fumaça”.

Pergunto-me, em primeiro lugar, de onde vem a ideia de que um sanduíche feito com pão de forma, peito de peru defumado e maionese possa ser chamado de natural? Tirando a mísera quantidade da cenoura e alface, os outros ingredientes passam longe de ser comida de verdade, isso porque são todos considerados produtos ultraprocessados (produzidos em grande parte, com substâncias não naturalmente presentes nos alimentos). Da mesma forma, como pode um suco de fruta que foi processado e adicionado de antioxidantes e conservantes receber essa nobre denominação? Isso sem falar no aroma de fumaça…

Os discursos, imagens e símbolos referentes ao natural estão por toda a parte: passeios naturais, roupas naturais, partos naturais, exercícios naturais, contemplação natural e outros ditos naturais circulam pelo imaginário social das pessoas.1 No entanto, é na área da alimentação que o natural é mais prolífico: inúmeros produtos de origem industrial, artesanal ou in natura incorporam o signo do natural.

O natural para alguns naturalistas, macrobiotas e vegetarianos é definido pela origem dos produtos e remetem à própria natureza e não são reconhecidos como naturais os alimentos “naturais-industriais”, produtos de processos fabris, da interação de máquinas, matéria-prima, agrotóxicos e força de trabalho. Diferentemente dos in natura ou do “natural-artesanal”, consideram o produto “natural-industrial” como um simulacro.1

Para os profissionais da saúde, o natural se insere no discurso do saber legitimado sobre a “boa alimentação”.1

Para a indústria os produtos naturais respondem à fórmula “sem aditivos”, mas esta definição envolve uma certa ambiguidade, já que a produção em massa do natural pode envolver processos químicos. Daí que, por exemplo, no caso da indústria de aromas existam diversas categorias de “produtos naturais”.1

A publicidade, por sua vez, fornece à indústria a consistência virtual do natural, necessária para anular potenciais oposições entre produção industrial e artesanal, insumos químicos e da terra, tornando equivalente todas as definições e referências.1

O conceito de natural, portanto, é amplo e envolve diversos aspectos, a depender de inúmeros fatores. O que é natural para mim, pode não ser para outra pessoa, mas antes de decidir usar essa palavra, convém apropriar-se mais dessa pequeno texto e fazer uma breve reflexão.

Afinal, para você, o que é natural?

Para mim, o café que bebi esses dias em casa (da semente que meu pai plantou, que floresceu, que o sol secou e ele torrou e moeu) é mais que isso! É naturalíssimo!

Referência bibliográfica

  1. LIFSCHITZ, J. Alimentação e cultura: em torno do natural. Pyysis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro,  v. 7, n.2, p.69-83, 1997.

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