Alimento, nutriente, remédio: como estamos ingerindo berinjelas?

Ao observar uma berinjela (alimento in natura) com toda a sua beleza de forma e cor lembramos que ela pode ser o ingrediente de uma deliciosa refeição como, por exemplo, uma lasanha de berinjela ou um babaganuche (prato típico Árabe). Enquanto alimento, esse ingrediente nos remete à refeição (alimento-refeição), à comida que será servida à mesa (dentro de uma casa ou em um restaurante), que será experimentada, saboreada por uma pessoa ou por várias, pode nos remeter à sua produção (se foi em horta familiar, comunitária, agroecológica, orgânica, ou nessas hortas mais comuns, nas quais são despejados um monte de agrotóxicos). Para uma pessoa, a berinjela pode ser proibida, por sua religião ou cultura, pode ser barata ou cara (lembrando-nos das relações que nos aproximam ou nos afastam de algum alimento).

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Quando pensamos em um suco de berinjela, seja com limão, laranja, gengibre, linhaça, o que for, o alimento que antes mantinha uma íntima relação com a refeição e era permeado de significados relacionados ao consumo (espaço, tempo, social, cultural, econômico, etc) passa a ter uma importância muito mais biológica, levando o alimento-refeição a um status de alimento-nutriente, já que o que importa é a sua composição nutricional rica em fibras, antioxidantes entre outros. Ainda, esse alimento passa a compor uma dieta com finalidades específicas: emagrecer, reduzir o colesterol, baixar a pressão entre outras infinidades de propósitos. Há que se considerar que a berinjela na forma de suco já não tem mais uma textura agradável (não há necessidade de mastigação), nem sabor, nem cor e não está combinado a um conjunto de outros alimentos, de forma que não se pode fazer referência a uma alimentação saudável (pelo menos no que diz respeito às Leis da Alimentação), apesar de algumas pessoas ainda o chamarem de refeição.

Indo mais além nessa questão do alimento-nutriente, ainda é possível outra situação: a berinjela que ao ser encapsulada pela indústria (farmacêutica, mas também podemos fazer alusão à indústria alimentícia) se torna remédio, precisando ser engolida com um gole de água. Nesse ponto, apesar de se referir ao termo alimento-remédio, fica difícil dizer que se trata de um alimento e já não se pode afirmar que se trata de uma alimentação, muito menos de uma refeição.

É aqui que queremos chegar, ao ponto que o alimento se distancia ao máximo do que se pode chamar de comida e da reflexão: como estamos comendo berinjelas?

A comida se come com alguém, em um determinado lugar, comida é tradição, cultura, é de tia, de vó, de rua, é síra, japonesa, italiana, de verdade. E refeição é uma comida que nos refaz todos os dias. Do latim, refctio-onis quer dizer restauro, reparo, recuperação.

Não podemos cair nesse reducionismo (de alimentos a nutrientes) ou no nutricionismo “que é uma concepção reducionista da comida, que de tanta importância que dá ao conteúdo energético e aos nutrientes conhecidos presentes nos alimentos, acaba levando a gente a acreditar que não precisamos de comida e sim de nutrientes. O nutricionismo é perigoso porque vende a ideia de que, adicionando nutrientes a qualquer coisa, essa coisa se torna alimento. E também porque finge que a ciência da nutrição sabe absolutamente tudo sobre os alimentos”1, além de levar muitas pessoas, inclusive nutricionistas a pensar que tanto faz a berinjela, o suco ou a cápsula.

Por mais que publicações indiquem o caminho de COMO COMER (e parafraseando – como devemos comer berinjelas), a escolha deve ser individual. Não se pode esquecer, porém, que toda escolha tem consequências e uma delas poderá recair sobre a si mesmo por não ter dado importância a esse texto e às seguintes frases: “A alimentação é mais que a ingestão de nutrientes”2 e “Toda substância nutritiva é alimento, mas nem todo alimento é comida”3.

Este texto foi escrito por Bruna Menegassi (Nutricionista CRN 21515)

Referências:

1 Pollan, M. Em defesa da comida – um manifesto. Rio de Janeiro: Intrínseca; 2008.

2 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014.

3 Da Matta, R. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco; 1986.

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