Receitas (des)padronizadas – a beleza de cozinhar

Esses dias, aqui em Dourados-MS, fui jantar fora. Faz tempo não fazia isso. Foi por um motivo nobre, o aniversário de uma amiga. O lugar, famoso pelo seu “escondidinho”, estava repleto de gente feliz, assim como eu. É sempre bom estar com pessoas que gostamos, principalmente quando nos reunimos ao redor de uma mesa (ou de várias).

A conversa estava boa, falávamos de receitas enquanto esperávamos todo o pessoal chegar. Foi aí que a fome apertou e logo pedi um caldo de mandioca com carne seca.

Fiquei pensando que o último dia que eu estive nessa rede de restaurante, estava lá em Guarapuava-PR, no amigo secreto dos professores da UNICENTRO, no fim do ano de 2014. Pensei no cardápio, que apesar de variado, era aquele mesmo de lá e igual ao dos mais de 100 restaurantes dessa rede espalhadas pelo Brasil. Como poderia um prato ser igual na quinta e no sábado, no norte e no sul do Brasil?

Não, não poderia.

Apesar de parecer, apenas de certa forma um prato poderia ser igual ao outro. Os equipamentos, utensílios e a receita poderiam ser padronizados, as marcas e os fornecedores dos produtos também, mas os ingredientes, a pessoa que faz e a pessoa que come jamais seriam as mesmas.

Minha refeição chegou e parecia muito saborosa. Pensei na cebolinha; nem o solo que a acolheu, nem a água que a fez brotar, nem o sol que a fez crescer, nem o homem que a plantou, nem o homem que a picou, nenhum desses elementos poderiam ser iguais. Nem que as sementes fossem do mesmo pacote, as plantas da mesma safra, as folhas do mesmo maço… Nem que o cozinheiro fosse o mesmo (afinal ele é diferente a cada segundo), mesmo assim, não seria possível um prato ser igual ao outro.

Comi então, a primeira colherada do caldo e gostei, pensei em todos esses fatores que “despadronizavam” aquela receita.

É óbvio que não estou negando a importância da ficha técnica de preparo e o receituário padrão que aprendemos na disciplina de técnica dietética, apenas estou refletindo sobre a pouca probabilidade de fazermos algo igual na cozinha, principalmente quando lidamos com criaturas de Deus, vegetais e animais (racionais e irracionais), infinitamente improváveis de serem iguais.

A beleza de cozinhar está nessa interação do homem (suas emoções, sentimentos e histórias) com o alimento (suas texturas, aromas e trajetórias), cada um em sua individualidade, que se complementam em uma infinidade de sabores e se tornam nossa refeição.

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1 Response

  1. Rute disse:

    amei o texto, não, não poderia ser igual, nós mesmos podemos dependendo no estado emocional, ou outros fatores, fazer o mesmo prato e ficar diferente.

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