Refeições compartilhadas, mas sem clicks

“Ontem eu estava sozinho em casa, não jantei, só comi um lanche”. Um dia ouvi tais palavras de um amigo. Ora, isso, me fez suscitar uma reflexão. O que seria considerada uma refeição? Pratos na mesa, talheres e guardanapos postos ao lado, entrada, prato principal, guarnição e sobremesa?

Segundo Lukanuski (1998)1 parece haver um ônus em se comer sozinho. Segundo esse autor a comida é ainda preparada com a expectativa de que seja compartilhada. Realmente, fazer uma refeição sem uma companhia é, quase sempre, uma última opção.

Bem, daí a necessidade de considerarmos uma outra questão: o ato de comer sozinho e não o de comer um lanche, como não sendo uma refeição. Acredita-se que o comportamento alimentar do homem distingue-se dos outros animais não apenas pela cozinha, mas também pela comensalidade (comer juntos ao redor da mesa) e pela função social das refeições.2

Hoje em dia, mesmo desacompanhados, procuramos a todo o tempo não estar sozinhos e, muitas vezes nos deparamos comendo com uma fiel companhia: o facebook. É, definitivamente, quando comemos queremos compartilhar com alguém, com o perdão do trocadilho.

No entanto, pesquisas científicas mostram que, por exemplo, os americanos, comem e fazem diversas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, fazem 1,81 coisas enquanto comem (quase 2, se você preferir), enquanto os franceses fazem 1,1. Por causa disso, se prestarmos atenção à obesidade, nas amostras americanas há cinco vezes mais casos de obesidade. São 35% versus 7,5%.3 São inúmeros os estudos que mostram que o multitasking (simultaneidade de tarefas) conduz à obesidade4,5 e alguns estudos já associaram o “comer sozinho” à depressão.6

Com isso, a percepção de que o comer junto, à mesa, é mais prazeroso, se torna mais clara e há evidências que comprovam, inclusive, ser mais saudável. Há uma grande importância, portanto, em percebermos a estreita relação entre o quê, como e com quem comemos.

Agora entendo o que meu amigo quis dizer com aquela frase. As pessoas não compartilham apenas alimentos, compartilham conversas, sentimentos em um determinado tempo e espaço. Definitivamente, para termos uma refeição, não são necessários pratos e talheres, nem mesmo entrada e guarnição se o prato principal for um lanche, e esse momento se tornará melhor ainda se tivermos uma companhia à mesa, uma pessoa com quem possamos compartilhar, sem clicks, as conversas do dia-a-dia, o amor de estar com a família ou entre amigos.

Entre em contato com a Nutricionista Bruna Menegassi.

 

Referências bibliográficas:

1. LUKANUSKI, M. A place at the counter: the ones of onesses. In: Scapp, R., Seittz, B. (Eds.) Eating Culture. Albany: State University of New York Press, 1998.

2. FLANDRIN, J.L & MONTANARI, M. A humanização das condutas alimentares. In: História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

3. ROZIN, P. et al. The ecology of eating: smaller portion sizes in France Than in the United States help explain the French paradox. Psychol Sci, v. 14, n. 5, p. 450-4, Sep 2003.

4. SALVY, S.J. et al. Effects of social influence on eating in couples, friends and strangers. Appetite, v. 49, n. 1, p. 92-9, Jul 2007.

5. SCHERWITZ, L.; KESTEN, D. Seven eating styles linked to overeating, overweight, and obesity. Explore (NY), v. 1, n. 5, p. 342-59, Sep 2005.

6. KIMURA, Y.  et al. Eating alone among community-dwelling Japanese elderly: association with depression and food diversity. The Journal of Nutrition Health and Aging, v. 16, n. 8, p. 728-31, Aug 2012.

 

 

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